Dieta rica em açúcar aumenta preferência por doces; promove excessos, obesidade em moscas de frutas

maio 14, 2019
Contact: Fernanda Pires fpires@umich.edu

Illustration of a fruit flyANN ARBOR—Algumas pesquisas sugerem que uma das razões que as pessoas obesas comem mais é porque não apreciam a comida—especialmente doces—tanto quanto as pessoas magras.

Mas não se compreende se a própria obesidade ou a ingestão de determinados alimentos provoca mudanças no paladar ou como essas mudanças afetam o apetite e a obesidade.

Para obter pistas, pesquisadores da Universidade de Michigan focaram na Drosophila melanogaster—as moscas de fruta—em um estudo publicado este mês na Cell Reports.

Eles descobriram que depois de alimentar as moscas de fruta com uma dieta rica em açúcar, os neurônios do sabor delas desencadearam uma reação molecular em cadeia, que dificultou sua capacidade de saborear doces, que por sua vez aumentou o consumo em excesso e a obesidade. Além disso, ingerir açúcar causou mudanças no paladar, mas não nas consequências metabólicas da obesidade ou o gosto adocicado dos alimentos.

Essas descobertas são significativas, porque se as pessoas respondem de forma semelhante ao açúcar, os pesquisadores estão mais próximos de entender como o excesso de açúcar contribui para comer em excesso e para a obesidade. E, como essas são mudanças moleculares, ela apoia a ideia de que comer em excesso está, pelo menos parcialmente, além do nosso controle.

Embora seja impossível medir o “prazer” dos alimentos pelas moscas de fruta, elas certamente comeram mais na dieta rica em açúcar, disse a principal pesquisadora Mônica Dus, professora associada de Biologia Molecular, Celular e de Desenvolvimento da U-M.

E sim—moscas de fruta se tornam obesas, disse Christina May, primeira autora da pesquisa e estudante de doutorado no laboratório de Dus. As moscas e os humanos compartilham outras semelhanças surpreendentes: ambos amam açúcar e gordura e produzem dopamina ao comê-las, e suas células cerebrais usam muitas das mesmas proteínas e moléculas que os humanos, para as mesmas coisas.

Os pesquisadores testaram suas descobertas de várias maneiras. Primeiro, eles alimentaram moscas que eram geneticamente obesas, mas nunca expostas a altos níveis de açúcar na dieta, e seu paladar não mudou. No entanto, quando eles deram açúcar equivalente a um cookie para moscas incapazes de armazenar gordura, e elas permaneceram magras, mas perderam a capacidade de saborear doces.

“Isso é realmente incrível porque prova que a habilidade delas em saborear doces mudou devido ao que estão comendo, não porque estão ficando obesas,” disse May.

Para descobrir se o açúcar ou o gosto doce da comida causou alterações no paladar, os pesquisadores forneceram uma dieta semelhante à refrigerante dietético artificialmente adoçado. Apenas as moscas que comiam açúcar de verdade perderam sua capacidade de saborear doce.

“Nós sabemos que é algo específico sobre o açúcar na dieta que os faz perder o paladar,” disse Dus.

Os pesquisadores identificaram a molécula O-GlcNAc transferase, um sensor de açúcar localizado nas papilas gustativas das moscas, que registra a quantidade de açúcar presente nas células. OGT já foi implicado em condições relacionadas à obesidade, como diabetes e doenças cardíacas em humanos.

Eles também manipularam as células gustativas das moscas para que, mesmo em uma dieta rica em açúcar, não perdessem o sabor, e essas moscas não comeram em excesso, apesar do grande volume de açúcar.

“Isso significa que as mudanças no paladar, pelo menos nas moscas, são muito importantes para impulsionar o consumo excessivo e o ganho de peso,” disse Dus. “As mudanças no paladar também desempenham um papel no consumo excessivo que vemos quando humanos e outros animais se encontram em ambientes de alimentos ricos em açúcar?”

O co-autor do estudo, Anoumid Vaziri, estudante de doutorado no laboratório Dus, disse que as descobertas “não apenas lançam luz sobre os mecanismos neurais de superalimentação e obesidade, mas fornecem uma plataforma para estudar os mecanismos moleculares subjacentes que impulsionam as mudanças nas atividades neurais.”

Então, o que isso significa para pessoas que estão acima do peso, fazendo dieta ou viciados em açúcar? É possível que, a longo prazo, uma droga—ou outra intervenção—que corrija a doçura dietética e preserve a sensação do sabor doce possa ajudar a reduzir a obesidade e as doenças crônicas associadas. Mas isso ainda está distante, May disse.

Mais importante, se os seres humanos respondem da mesma forma que as moscas, a pesquisa sugere que a alteração da quantidade de açúcar na dieta pode ajudar a regular a nossa ingestão de alimentos, disse Dus. Grande parte do açúcar que comemos está escondida em alimentos processados, e é importante mantê-lo no mínimo, acrescentou ela.

“Acho que se tentar manter o açúcar fora de sua dieta, você provavelmente ficará bem, não terá problemas com a mudança do paladar e excessos,” disse May. “Todos nós tentamos evitar os açúcares adicionados. Isso é importante.”

Estudo: High Dietary Sugar Diet Reshapes Sweet Taste to Promote Overconsumption in Drosophila Melanogaster

Vídeo: This is the Way the Cookie Crumbles: Excess Dietary Sugar and its Effect on Taste Perception

Laboratório Monica Dus