Legado persistente: Brasileiros da ‘geração da ditadura’ enfrentam envelhecimento precoce

As disparidades de saúde entre brasileiros pretos e pardos e seus contemporâneos brancos são mais severas na meia-idade, não na velhice. Crescer durante o regime autoritário colocou esses grupos em uma desvantagem maior do que a das gerações mais velhas, criadas em governos mais democráticos.
Um novo estudo da Universidade de Michigan revela que, para muitos brasileiros pretos e pardos, as dificuldades de mobilidade, memória, visão e audição são piores aos 50 anos do que aos 80.
Pesquisadores contestam a alegação de que o Brasil é uma “democracia racial” ao constatarem que crescer sob o regime militar do país representa uma desvantagem notável para a saúde, especialmente para as comunidades pretas e pardas. Embora a ditadura tenha terminado há décadas, o estudo, publicado no Journal of Gerontology: Social Sciences, mostra que seu legado continua prejudicando a saúde dos brasileiros em processo de envelhecimento.
Esta população, na faixa dos 50 anos, foi a primeira a viver o início da vida sob a ditadura militar brasileira (1964–1985). Durante essa era, políticas sociais “daltônicas” (que ignoravam a raça) negligenciaram a profunda estratificação racial, deixando comunidades marginalizadas com acesso escasso à educação, à nutrição e à saúde—elementos necessários para um envelhecimento saudável.

“Essas descobertas remetem ao conceito dos ‘reflexos duradouros da infância’, que sustenta que as condições do início da vida preparam o terreno para a saúde mais tarde, ao mostrar como brasileiros pretos e pardos que cresceram durante a ditadura militar têm agora um risco mais alto de sofrer limitações em sua autonomia,” disse o autor principal Shane Burns, bolsista de pós-doutorado no Centro de Estudos de População do Instituto de Pesquisa Social da U-M.
“A perspectiva do curso de vida enfatiza como os contextos sociais e ambientais moldam as trajetórias de saúde ao longo do tempo. A história política tumultuada e única do Brasil, aliada à população em rápido envelhecimento, torna especialmente interessante estudar as implicações para a saúde pública.”

Burns e sua colega Philippa Clarke, pesquisadora do ISR e professora de epidemiologia, analisaram dados de aproximadamente 9 mil brasileiros com 50 anos ou mais que participaram do ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros) em 2015-16. Eles analisaram as diferenças raciais em dificuldades relatadas de mobilidade, memória, visão e audição em quatro faixas etárias: 50-59, 60-69, 70-79 e 80 anos ou mais.
A análise levou em conta fatores como demografia, histórico infantil, educação, renda, problemas de saúde, relações familiares e local de residência.
“Os resultados foram um tanto surpreendentes, mas compreensíveis, dada a história única do Brasil,” disse Burns. “A gente antecipava que as disparidades raciais na saúde seriam piores nos grupos de idade mais avançada à medida que a sociedade se torna mais igualitária, mas vemos aqui que o grupo de idade mais jovem apresenta as maiores disparidades raciais, e é por causa desse contexto político muito específico em que cresceram.”
Riscos distintos, soluções personalizadas
O estudo inova ao distinguir os fatores de risco de limitação funcional entre as populações pretas e pardas, revelando que suas desvantagens diferem, o que indica que os brasileiros pretos e pardos enfrentam obstáculos sistêmicos únicos. Isso coloca em questão décadas de políticas públicas que, muitas vezes, agruparam todos os cidadãos não brancos em uma única categoria.
Os pesquisadores também identificaram diferenças na memória entre grupos raciais e faixas etárias. Brasileiros pretos, pardos e indígenas—de 50 a 59 anos—tinham maior probabilidade de relatar problemas de memória episódica do que seus colegas brancos. Nas faixas etárias de 60-69 e 70-79 anos, a memória era pior entre os entrevistados pretos e pardos. Aos 80 anos ou mais, apenas os entrevistados pardos continuavam a apresentar dificuldades de memória.
“As condições socioeconômicas precárias na infância explicam as disparidades que afetam os brasileiros pretos, enquanto a infraestrutura precária em regiões menos desenvolvidas relaciona-se às disparidades enfrentadas pelos brasileiros pardos”, disse Burns. “As condições de vida precárias para pessoas pretas e os fatores geográficos—como região e residência urbana ou rural—para pessoas pardas são os principais impulsionadores de sua saúde inferior em comparação com as pessoas brancas.”
“Melhorar as condições na infância, especialmente ao enfrentar a pobreza, e aprimorar a infraestrutura em regiões subatendidas poderiam ajudar a prevenir essas disparidades. Além disso, expandir o acesso à saúde e aos cuidados de longa duração para populações em situação de risco poderia proporcionar uma abordagem mais responsiva, especialmente para aqueles com maior risco de demência.”
