Mozart e os molares: música acalma os nervos de estudantes de odontologia

Maio 16, 2018
Fernanda Pires

ANN ARBOR—O teste prático mais esperado e estressante acontece em uma hora, mas em vez de andar ansiosamente ou alongar pelos corredores, os estudantes de odontologia do primeiro ano da Universidade de Michigan estão desfrutando de música clássica.

Os futuros dentistas estão ouvindo Mozart, Borodin e Josquin. Todos os olhos estão fixos no palco da Faculdade de Odontologia. Alguns os mantém fechados, inspirados nas peças. Os músicos por trás dos dois violinos, do violoncelo e da viola são quatro alunos da Escola de Música, Teatro e Dança, também da U-M.

“A performance consegue tirar nosso foco da prova prática, limpa nossa mente,” disse a estudante de odontologia do primeiro ano, Christine Uggeri, de Kalamazoo. “É bom poder se distrair um pouco, ouvir música e baixar nossa adrenalina e ansiedade até a turbina do motorzinho ser ligado e voltarmos à realidade.”

O encontro musical e interdisciplinar tem dois objetivos principais: diminuir a ansiedade dos alunos e reduzir a taxa de erros durante os testes práticos, quando os alunos estão sendo testados pela primeira vez usando uma das ferramentas mais assustadoras – a broca.

Elisabeta Karl, professora clínica de odontologia.

Elisabeta Karl, professora clínica de odontologia.

“Eu estou sempre tentando encontrar maneiras de incentivar e apoiar abordagens inovadoras e criativas para a educação,” disse Elisabeta Karl, professora clínica de odontologia. “Um pequeno deslize da broca pode causar um grande dano ao dente do paciente. Qualquer ideia para ajudar os alunos a terem um bom desempenho é mais do que bem-vinda.”

Karl começou a se interessar pelos potenciais benefícios da musicoterapia para os estudantes de odontologia em 2016, quando leu um artigo de pesquisa sobre os efeitos da música para baixar a ansiedade dos estudantes de enfermagem durante a primeira experiência de coleta de sangue. O estudo constatou que os alunos que ouviam música tinham uma pontuação média de ansiedade mais baixa e tinham mais sucesso ao concluir as etapas corretamente. Os alunos que não ouviram música experimentaram mais ansiedade durante o procedimento, desempenho inferior e maior taxa de erros.

Segundo pesquisas, a ansiedade é uma reação psicológica contra a energia excessiva resultante de dificuldades que sobrecarregam o indivíduo. É considerada um dos sentimentos humanos básicos e geralmente ocorre quando uma pessoa se sente ameaçada. Na educação, pode ser medo do fracasso e dificuldades em relacionar a teoria à prática.

Fácil de aplicar e com baixo custo, a música é um método natural, sem efeitos colaterais. Desempenha um papel importante na melhoria física, psicológica, social, emocional e espiritual, não só nos hospitais, como também na educação.

“Acho que a música, no contexto certo, pode realizar muitas coisas,” disse a estudante de música, Teagan Faran. “Para este projeto, escolhemos peças específicas para relaxar o público. Ao oferecermos algo que requer apenas energia cognitiva passiva de uma pessoa, permitimos que ela relaxe a mente por um momento e ganhe um tempo de auto-reflexão.”

Nesta aula, chamada Fundações Clínicas, os estudantes desenvolvem habilidades básicas em instrumentação dental, princípios de odontologia cirúrgica e técnicas para restaurações dos dentes. Cada movimento exige que os alunos realizem procedimentos precisos em manequins.

Para John Misch, estudante de odontologia de West Bloomfield Hills, a disciplina apresenta grandes desafios e pode ser determinante para o futuro da profissão.

John Misch, estudante de odontologia.

John Misch, estudante de odontologia.

“Se não estamos indo bem durante esta aula, nos questionamos sobre a carreira que escolhemos, se estamos realmente destinados à ela,” disse ele. “É por isso que é tão importante ter um bom desempenho.”

O quarteto da Escola de Música tocou por quase meia hora sob o caloroso aplauso dos 108 estudantes de odontologia. Para medir a ansiedade, os alunos responderam, antes e depois da apresentação, a um teste resumido de seis itens, conhecido como Spielberger State-Trait Anxiety Inventory, em inglês.

Oitenta e oito por cento dos estudantes relataram “se sentir mais calmos” após o concerto e 96% gostaram da apresentação. Os alunos também tiveram um melhor desempenho em um teste específico de restaurações, uma das práticas mais difíceis: em 2017, 44% dos alunos falharam parcialmente no teste contra 19% neste ano. “Acredito que a música não foi a única razão pela qual os estudantes de odontologia tiveram um desempenho melhor, mas, com certeza, os ajudaram,” disse Karl.

Karl agora planeja aplicar rotineiramente as apresentações musicais antes dos testes de habilidades clínicas básicas.

“Eu quero melhorar as experiências de aprendizado clínico e também aumentar o bem-estar, tornar o ambiente mais amigável e mais saudável para que os estudantes tenham sucesso acadêmico e profissional,” disse ela.

Christine Uggeri, estudante de odontologia.

Christine Uggeri, estudante de odontologia.

Uggeri notou a diferença também.

“Você não pode esquecer que trabalhamos com uma margem de 3 mm,” disse ela. “Se você está trêmulo ou um pouco nervoso e acidentalmente move a mão na posição errada, você pode danificar o dente seriamente. Então é muito bom baixar a ansiedade e eliminar o tremor, antes das nossas práticas. Eu realmente gostei e relaxei com a performance.”

Elisabeta Karl
Mais sobre o projeto de estudante de música Teagan Faran: Red Shoe Company, em Made at Michigan.
UMS