Nada de inglês: Como Bad Bunny remodela o mainstream pop dos EUA

abril 22, 2026
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Já a cantora Anitta abraça o poliglota: os diferentes caminhos para a dominação global após sua estreia histórica no SNL em abril

Bad Bunny performs. Image credit: Comecoquito, CC0, via Wikimedia Commons
Bad Bunny performs. Image credit: Comecoquito, CC0, via Wikimedia Commons

Q&A COM ESPECIALISTA BRASILEIRO

Benito Antonio Martínez Ocasio, conhecido mundialmente como Bad Bunny, não apenas subiu nas paradas; ele ignorou toda a engrenagem da indústria.

De empacotador de supermercado em Porto Rico a ícone global, ele provou que não é preciso cantar em inglês para dominar o palco—um feito consolidado por seu histórico de ‘Álbum do Ano’ do Grammy em 2026, com ‘Debí Tirar Más Fotos’.

Gustavo Souza Marques
Gustavo Souza Marques

O brasileiro Gustavo Souza Marques, professor assistente de música na Universidade de Michigan, é especialista em como a música e a tecnologia colidem nas Américas.
Estudioso da evolução do pop global, ele detalha como Bad Bunny se tornou o maior artista do planeta sem nunca trocar sua língua materna por um hit de “crossover”.

Bad Bunny alcançou quatro álbuns nº 1 na Billboard 200, todos em espanhol. Do ponto de vista da musicologia, como ele conseguiu ignorar o requisito tradicional de “crossover” (cantar em inglês) que definiu artistas como Ricky Martin e Shakira?

Estudos em sociologia e demografia sugerem que, até a década de 2050, os EUA podem se tornar um país de “maioria minoritária”, quando populações historicamente associadas a menos poder político, como os latinos, representarão um dos maiores grupos em termos numéricos. Essa mudança tem implicações importantes para a indústria musical e para o consumo de música e de cultura de forma mais ampla.

Já testemunhamos esse impacto com Bad Bunny e outros artistas influentes do hip-hop latino, como o Cypress Hill, de Los Angeles, que lançará seu primeiro álbum original em espanhol em maio.

A decisão de Bad Bunny de levar Ricky Martin ao seu show no Super Bowl sinaliza essa mudança e abre um diálogo entre o que significava ser um artista latino no passado e o que significa hoje. Também é importante reconhecer que o espanhol é a segunda língua mais falada nos EUA há décadas e que Porto Rico é território dos EUA. Nesse contexto, cantar em espanhol em eventos públicos deve ser compreendido como parte de um cenário cultural e histórico latino-americano mais amplo.

Seu trabalho mais recente se inclina para os gêneros musicais bomba e plena. Por que esses ritmos hiperlocais porto-riquenhos estão sendo tão bem traduzidos para públicos que podem não conhecer a história por trás deles?

Nos estudos culturais, o termo “glocal” é usado para descrever esse processo. Máximas como “pense local, aja global” encapsulam uma mentalidade que se tornou mais comum com a ocidentalização e/ou a globalização do mundo, particularmente durante e após o boom econômico do pós-guerra e os avanços nas tecnologias de comunicação e transporte.

Ao incorporar elementos musicais “hiperlocais”, Bad Bunny recentraliza o que significa ser porto-riquenho, colocando sua bagagem cultural na vanguarda da cena musical internacional. Essa reflexão pode ser estendida à centralidade do espanhol porto-riquenho em seu trabalho musical e identidade latino-americana.

Finalmente, precisamos considerar conceitos do hip-hop como “flipping the script” (virar o jogo), que ressoam com a persona e o trabalho musical de Bad Bunny.

Como os porto-riquenhos são cidadãos dos EUA, o sucesso dele é, tecnicamente, doméstico. No entanto, ele é frequentemente tratado como um artista “estrangeiro”. Como a vitória dele no Grammy desafia a forma como definimos a “música americana” hoje?

Temos visto discussões interessantes sobre o Grammy. O artista de hip-hop contemporâneo Tyler, The Creator expressou que se sentia “dividido” ao receber um Grammy em 2020 por Melhor Álbum de Rap com IGOR (2019), já que sua intenção era que fosse um álbum pop. Sua declaração levantou preocupações sobre a forma como a música negra é categorizada e julgada nas premiações. Ele até fez uma comparação provocativa com a “n-word,” para destacar como o rótulo “urban” pode funcionar como uma classificação problemática.

Atualmente, estamos testemunhando uma rearticulação do que constitui a música americana, com uma forte presença do reggaeton nas paradas, nas boates e nos gostos musicais da juventude norte-americana. Essa mudança não é inesperada, considerando o consumo digital de música hoje, o que permite fácil acesso a expressões sonoras de todo o mundo, não apenas nos EUA.

Considerando a estreia de Anitta no SNL este mês, como a estratégia dela de cantar em espanhol e português se compara à resistência de Bad Bunny em cantar apenas em sua língua materna?

A Anitta também tem uma carreira global muito interessante, com raízes na cena do baile funk do Rio de Janeiro dos anos 2000. Assim como o Bad Bunny, ela começou a ganhar visibilidade por meio de produções independentes na internet, o que, com o tempo, a levou a atrair a atenção de produtores locais influentes—especialmente da icônica Furacão 2000. Rapidamente, tornou-se um fenômeno nacional devido ao seu talento artístico, tino comercial e carisma. Sua imagem enquanto mulher latina e mestiça também desempenha um papel importante, como é recorrente nas dinâmicas de gênero e raciais que estruturam a indústria pop em diferentes eras, e que também ecoam questões estruturais mais profundas de nossa sociedade global. Aos poucos, ela foi capaz de também galgar seu espaço na cena internacional, inclusive por meio de colaborações com rappers como Snoop Dogg e latinas de grande projeção como Shakira, que, enquanto colombiana, já trouxe visibilidade a cantoras sul-americanas antes da Anitta.

Mas há algumas questões importantes a considerar ao comparar—ou traçar paralelos entre—as carreiras de Anitta e de Bad Bunny.

Embora tenham idades próximas, o Bad Bunny é um fenômeno da internet mais recente. Seu crescimento artístico e comercial ocorreu em um momento distinto, já marcado pela centralidade do streaming e das plataformas digitais. Sua ascensão se deu principalmente por meio da circulação online de suas músicas e do engajamento direto com o público, em diálogo com estruturas já consolidadas do pop, hip hop e reggaeton em Porto Rico e na indústria global, o que posteriormente o conectou a selos e gravadoras internacionais ao ser descoberto enquanto fenômeno digital. O fato de ser falante nativo de espanhol também o diferencia.

Ao incorporar o espanhol e o inglês em sua produção musical, Anitta não apenas amplia seu alcance, mas também responde ao crescimento demográfico e cultural latino, especialmente nos Estados Unidos. A música brasileira faz parte disso e não é a primeira vez na história que o Norte Global se interessa por nossos artistas, tanto pelas danças latinas nos EUA no início do século XX, quanto pelo sucesso da bossa nova.

Ao mesmo tempo, há diferenças importantes na forma como cada artista se posiciona publicamente. O Bad Bunny mobiliza uma linguagem mais explicitamente política, se envolvendo em protestos e causas sociais. A Anitta tem se aproximado de pautas relevantes, ainda que de maneira menos confrontacional e mais alinhada ao universo pop.

Nesse sentido, sua posição como mulher, de origem periférica e inserida em uma indústria marcada por dinâmicas de gênero, também influencia as estratégias que adota, exigindo uma abordagem que caminhe entre acessibilidade, visibilidade e afirmação.

Nada disso, no entanto, diminui o quanto ela avançou nem o que isso representa em um contexto global. Assim como é interessante acompanhar a ascensão de um artista como Bad Bunny, é igualmente impressionante tudo o que a Anitta construiu até aqui.