O cérebro lembra: O preço oculto do uso de substâncias por jovens adultos

Jovens adultos que fazem uso excessivo de substâncias podem relatar uma memória significativamente mais fraca décadas depois, sugere um novo estudo da Universidade de Michigan.
Os pesquisadores acompanharam a frequência com que os participantes relataram consumo excessivo de álcool (binge drinking) e uso diário—ou quase diário —de álcool, cannabis e cigarros entre os 18 e os 30 anos de idade. Em seguida, compararam esses padrões à memória ruim auto relatada pelos participantes entre 50 e 65 anos de idade.
O estudo, financiado pelo Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (National Institute on Drug Abuse), foi recentemente publicado no periódico Journal of Aging and Health.

“O uso de substâncias tem efeitos agudos e de longo prazo na saúde e no bem-estar”, disse Megan Patrick, professora pesquisadora do Instituto de Pesquisas Sociais e principal pesquisadora do Estudo de Painel Longitudinal Monitoring the Future. “Memória ruim é um sinal comum de demência precoce. Nós examinamos se o uso de substâncias na juventude estava associado à memória mais fraca décadas depois, na meia-idade.”
Identificar comportamentos que moldam a saúde cerebral ao longo da vida é fundamental. De acordo com Patrick, este é um dos primeiros estudos longitudinais a associar o uso cumulativo de substâncias na juventude à cognição autoavaliada no final da meia-idade.
A juventude é um período crítico para o desenvolvimento do cérebro. O estudo mostra que os padrões de uso de substâncias estabelecidos durante essa fase podem ter consequências duradouras sobre a memória e a saúde cognitiva muito mais tarde na vida.
“Dados como os que temos do Estudo de Painel Longitudinal MTF nos permitem observar essas associações ao longo de várias décadas de desenvolvimento entre os participantes,” disse Patrick. “Identificar os fatores de risco que podem levar à demência é crucial para a prevenção e o tratamento do declínio cognitivo.”
Tríplice ameaça e dependência
Os resultados sugerem que diferentes substâncias podem estar associadas a problemas de memória por mecanismos distintos—alguns por meio dos sintomas de transtorno por uso de substâncias e outros de forma mais direta.
Por exemplo, o consumo excessivo de álcool e o uso frequente de cannabis na juventude não foram diretamente associados ao relato de memória ruim na vida adulta posterior. Em vez disso, eles aumentaram o risco de desenvolvimento de transtornos por uso de substâncias em pessoas na faixa dos 30 anos, e esses transtornos foram associados a uma memória pior mais tarde na vida. Isso sugere que tratar o uso de substâncias na meia-idade pode ajudar a proteger a saúde cerebral.
O tabagismo mostrou um padrão diferente. Fumar diariamente na juventude previu uma memória pior no início da meia-idade, independentemente dos hábitos de fumo aos 35 anos de idade. Essas descobertas destacam a necessidade de prevenir o tabagismo no início da vida, afirmou Patrick.
“É importante que as pessoas entendam as conexões de longo prazo entre seus comportamentos e sua saúde e bem-estar futuros,” ela disse. “Mesmo que alguém pense que o uso atual de substâncias não é problemático porque não está afetando sua saúde agora, ainda há possíveis consequências de longo prazo a serem consideradas. Neste caso, estamos encontrando evidências de potenciais impactos negativos do uso excessivo de substâncias na juventude sobre o funcionamento cognitivo dessas pessoas, mais de 20 anos depois.”
Patrick afirmou que esforços de prevenção e intervenção direcionados a jovens adultos poderiam beneficiar significativamente a saúde cerebral a longo prazo.
“Como vimos, este estudo demonstra potenciais impactos negativos de longo prazo do uso excessivo de substâncias por jovens adultos na saúde cognitiva mais tarde na vida e destaca a importância de intervenções precoces,” ela disse. “Compreender esses fatores de risco e sua trajetória ao longo da vida orientará estratégias para apoiar a saúde cognitiva.”
Os autores do estudo também incluem Yuk Pang, Yvonne Terry-McElrath e Joy Bohyun Jang, do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade de Michigan.
