Trauma na infância associado à perda dentária na vida adulta

maio 28, 2019
Contact: Fernanda Pires fpires@umich.edu

Dentist with patient. Stock Image.

ANN ARBOR—Mesmo quando as crianças superam adversidades da infância à medida que crescem, o trauma que elas experimentam no início da vida faz com que tenham um risco maior de perda de dentes, de acordo com pesquisadores da Universidade de Michigan.

Haena Lee, pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Pesquisa Social da U-M, avaliou o impacto de eventos adversos na infância sobre a saúde bucal – especificamente, perda total de dentes – na vida adulta. Esses eventos incluem trauma na infância, abuso e, em menor grau, tabagismo.

“Os efeitos significativos dessas experiências adversas durante a infância sobre a saúde bucal são persistentes, além de diabetes e doenças pulmonares, que são conhecidos por serem correlatos de má saúde bucal,” disse Lee.

A pesquisa atual se concentra em condições de saúde, como diabetes e doenças pulmonares, que podem ser fatores de risco para a saúde bucal, diz ela. Medicação para diabetes provoca boca seca, o que pode levar a uma má saúde bucal. Fumar pesado, está associado a doenças pulmonares, mas também pode causar perda de dentes.

“Mas não são apenas essas condições médicas que explicam sua função oral,” disse Lee. “Estima-se que quase 20% dos americanos com mais de 50 anos vivem sem dentes, e quero chamar a atenção para histórias de curso de vida que podem capturar alguns outros caminhos importantes para essa disparidade de saúde bucal.”

Lee obteve dados do Estudo de Saúde e Aposentadoria (Health and Retirement Study, sigla HRS, em inglês) de 2012, um estudo longitudinal nacionalmente representativo de adultos mais velhos e seus cônjuges nos Estados Unidos. O estudo inclui uma pesquisa básica coletada a cada dois anos e uma pesquisa suplementar a cada ano. Em 2015, a pesquisa suplementar solicitou informações detalhadas sobre o histórico familiar da infância.

Lee coletou as informações de saúde bucal dos participantes da pesquisa principal do HRS de 2012, além de dados como experiências de infância, nível de educação de adultos e status de pobreza de pesquisas anteriores e suplementares do HRS.

Usando esses dados, ela investigou três modelos de pesquisa de curso de vida: o período sensível, definido como o tempo na vida de uma pessoa durante o qual os eventos têm o maior impacto em seu desenvolvimento; o modelo de acumulação, que examina o efeito do acúmulo de eventos ao longo da vida; e o modelo de mobilidade social, que examina a mudança no status socioeconômico de uma pessoa durante a vida dessa pessoa.

Ela descobriu que mais de 13% dos adultos com mais de 50 anos perderam todos os seus dentes permanentes. Quase 30% dos entrevistados sofreram dificuldades financeiras, perderam seus pais ou tiveram um divórcio dos pais aos 16 anos. Dez por cento dos entrevistados sofreram abuso físico e 18% fumaram durante a infância. Quase metade possuía diploma de ensino médio (ou menos) e 20% dos entrevistados tinham vivido na pobreza pelo menos uma vez desde os 51 anos.

Depois de controlar o status socioeconômico adulto, diabetes e doenças pulmonares, Lee descobriu o impacto a longo prazo do trauma e abuso infantil na perda total de dentes. Ela também descobriu que os adultos mais velhos correm um risco maior de perda total de dentes se tiverem enfrentado eventos adversos consistentemente ao longo da vida.

Lee diz suspeitar que eventos adversos podem afetar a perda de dentes por meio de vias socioambientais. Por exemplo, crianças abusadas podem ter maior probabilidade de se envolver em comportamentos de saúde, como consumo excessivo de álcool ou uso excessivo de açúcar ou nicotina, o que pode contribuir para a perda de dentes.

O estresse também pode afetar o controle inibitório do cérebro, o que pode levar à dependência da nicotina. O trauma na infância pode ter um efeito negativo no aprendizado e na conquista, e pessoas com baixo nível de escolaridade podem ter menos probabilidade de manter empregos que ofereçam assistência odontológica.

“É muito triste dizer que a adversidade gera adversidade, mas realmente parece que a saúde bucal está enraizada em experiências adversas que você encontra ao longo da vida, particularmente na infância,” disse Lee. “A política futura pode se beneficiar ao considerar o papel da adversidade na infância e além de reduzir ainda mais a disparidade na saúde bucal.”

O estudo está publicado no Community Dentistry and Oral Epidemiology.

Resumo do estudo: A life course approach to total tooth loss: Testing the sensitive period, accumulation, and social mobility models in the Health and Retirement Study

Haena Lee