Aprendendo com o sucesso dos bancos de leite do Brasil

dezembro 12, 2014
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A mother, baby and doctor.RIO DE JANEIRO—Maria Lima faz carinho em sua bebê enquanto ela dorme em uma incubadora. Maquel nasceu prematura e não deve ter alta do hospital tão cedo.

“É muito triste. Você tem que deixar sua criança aqui, não pode levá-la para casa,” disse Lima. “Aí quando você chega em casa, sente um vazio.”

Lima também tem outra preocupação. Ela é incapaz de produzir leite suficiente para a bebê, que é fraca para sugar. Isto, porém, não é um grande problema para Lima: o Brasil é líder mundial em bancos de leite, com coleta e fornecimento para as crianças em necessidade.

“Ela está melhorando, está respirando por conta própria, sem equipamentos” disse Lima, que não quer dar fórmula ao bebê.

“Vou continuar a dar o leite humano a ela, e tenho certeza que a Maquel vai se desenvolver mais rápido e logo vamos para casa,” ela acrescentou.

No ano passado, quase 163.000 mulheres doaram leite materno, que alimentou 183.000 bebês no Brasil. O sistema dos Centros de Coleta, ou “bancos de leite”, é tão bem sucedido que se tornou um modelo para os países em toda a América Latina, África e Europa.

Este sucesso da rede no Brasil é um grande interesse para a pediatra da Universidade de Michigan Lisa Hammer. Recentemente, ela liderou um grupo de médicos da U-M e outros profissionais da saúde no Rio de Janeiro para explorar a possibilidade de adotar partes do modelo brasileiro nos EUA.

“Temos muito o que aprender com eles”, disse Hammer. “O que mais me impressiona é o foco do Brasil na manutenção de um padrão de qualidade extremamente alto, e ao mesmo tempo na contenção de custos.”

Two doctorsExistem 213 bancos de leite em todo o Brasil, enquanto os EUA só tem 15. O estado de Michigan tem apenas um, na cidade de Kalamazoo.

O impulso para melhorar os bancos de leite do Brasil começou 30 anos atrás, quando o então químico João Aprígio Guerra de Almeida visitou um deles e ficou chocado com o que viu: um sistema que se baseava principalmente em mães com baixo poder aquisitivo vendendo seu leite.

A venda de leite humano foi eventualmente banida, graças a uma campanha de Almeida. Ele também desenvolveu maneiras de cortar custos. Em vez de armazenar leite em recepientes caros, começaram a utilizar vidros de maionese ou café. Para pasteurizar o leite, eles usam equipamentos brasileiros utilizados nas análises de alimentos em laboratórios, em vez de máquinas que custariam 16 vezes mais.

“Eu realmente me orgulho em dizer que estamos ajudando a salvar a vida de 300.000 recém-nascidos por ano no Brasil. Estamos investindo nestas crianças”, disse Almeida, diretor da Rede Brasileira de Banco de Leite.

Frequentemente, o sistema de banco de leite é citado como um dos principais fatores no declínio de 73 por cento da mortalidade infantil do país, nas últimas duas décadas, de 63,2 mortes a cada 1.000 nascimentos em 1985 para 19,6 em 2013.

Mesmo assim, ainda há muito trabalho a ser feito. Cerca de 45 por cento das crianças que precisam de leite não têm acesso a ele, disse Almeida. “Então, continuamos comprometidos para que a rede de banco de leite continue se expandindo para alcançar este déficit.

A construção da infra-estrutura correta para bancos de leite foi importante. Tão vital quanto, foi o trabalho de conscientização pública e o apoio ao programa.

“Acho muito bacana e eficiente a forma com que o sistema está configurado no Brasil,” disse Anna Sadovnikova, estudante de Mestrado da Escola de Saúde Pública da U-M, que visitou mais de 20 bancos de leite este ano. Ela está fazendo um estudo comparativo dos sistemas no Brasil, onde passou um mês, na Europa e Estados Unidos.

Sadovnikova explica que os bancos de leite ficam geralmente em um hospital, então as mulheres que vão fazer seus exames do pré-natal podem também assistir aulas de amamentação.

“Elas dividem suas histórias e aprendem umas com as outras, além de terem apoio profissional das supervisoras dos grupos de saúde”, disse Sadovnikova. “Logo após o nascimento dos seus bebês, essas mães recebem informações de todos os lados, desde os profissionais da saúde até dos seguranças que trabalham nas portarias dos hospitais, enfatizando a importância do leite humano para seus bebês.”

Amamentar é extremamente importante, disse a neonatologista Kate Stanley, que fez parte do grupo da U-M que viajou ao Brasil.

“Nós sabemos que o leite humano traz múltiplos benefícios, em termos da diminuição de infecções e problemas gastrointestinais. Melhora o crescimento da criança no geral, e há alguns estudos que mostram a melhora do QI,” disse Stanley.

“Uma das dificuldades que temos é que nem todos podem pagar pelo leite humano nos Estados Unidos. O modelo do Brasil é que eles fornecem para quem precisa dele. Precisamos dar uma olhada neste sistema. O que faz com que os bebês cujos pais podem pagar sejam mais importantes do que os outros?”, acrescentou a médica.

Jacira da Silva, que recentemente deu a luz à um menino saudável, é doadora assídua de leite humano. Ela teve alta rapidamente e levou seu filho para casa, mas não se esqueceu das mães e bebês que não tiveram a mesma sorte. Toda semana, ela retorna ao hospital para doar seu leite.

“Eu decidi ser uma doadora para ajudar as crianças que precisam”, disse ela. “Eu sei que muitos bebês doentes podem se beneficiar desta ‘alimentação saudável’. Eu sou tão grata em ter meu bebê comigo e realmente queria ajudar outras famílias de alguma forma. Quanto mais leite você doa, mais leite você produz.”

Outra doadora, Maria Teresa Aragao, disse que, desde o momento em que soube que estava grávida, tinha certeza que tentaria ser doadora de leite. “Fiquei tão feliz em saber que alguém estava recebendo meu leite e que eu estava ajudando alguma criança, sem custo algum,” disse Aragão, que doava leite semanalmente.

Hammer disse que várias partes do modelo brasileiro poderiam ser adaptadas nos EUA, outras teriam que ser adequadas às normas americanas. “O que o Brasil faz muito bem é integrar educação, suporte e processamento de leite,” ela disse. “Eu gostaria de ter essa mesma abordagem integrada nos EUA.”

Esta viagem foi financiada pela Brazil Initiative, do Centro de Estudos da América Latina e Caribe.

Link: Brazil Initiative